Copa do Mundo

Copa do Catar: Como vai ser o maior campeonato de futebol do mundo, pós-pandemia

Os olhos do mundo se viram para o Catar a partir de novembro. Na 1ª Copa do Mundo realizada no […]

Foto: Michael Regan - FIFA/FIFA via Getty Images

Os olhos do mundo se viram para o Catar a partir de novembro. Na 1ª Copa do Mundo realizada no Oriente Médio, a expectativa é de um espetáculo como nunca visto antes. Assim, Doha e suas altas temperaturas serão tomadas pelo planeta – e pelo sonho do hexa.

No próximo dia 20 de novembro, Catar e Equador abrem a tão esperada disputa que vai até 18 de dezembro. Mas a história começou lá atrás, em 2009, quando o Catar apresentou sua candidatura ao país-sede e deu início a um enredo de festas e polêmicas.

O duro caminho até o Catar

A jornada da escolha da sede da Copa do Mundo de 2022 começou ainda no início de 2009, quando Catar, Austrália, EUA, Japão e Coréia do Sul apresentaram candidaturas para receber os jogos. A escolha pelo país veio no fim de 2010.

Mas aquele processo, que também escolheu a sede da Copa de 2018, foi alvo de uma série de acusações de corrupção e compras de votos. Além disso, também foram encontradas fraudes nas licitações dessas duas edições do Mundial de Futebol.

Assim, em meio a esses e outra série de outros escândalos que vieram à tona em 2015, a Fifa passou por mudanças intensas em suas direções e terminou com dezenas de pessoas indiciadas. E isso gerou muita pressão para tirar a Copa do Mundo do Catar.

Mas os escândalos de corrupção passaram longe de ser o único questionamento sobre a validade de se fazer o torneio no país.

E a própria Fifa ainda complicaria a situação quando sugeriu antecipar a ampliação para 48 países em 2022 – com sedes em países vizinhos. Mas as séries de sanções impostas entre o Catar e seus vizinhos árabes deixava impossível qualquer acordo nesse sentido.

Mas muito além disso, os debates pré-Mundial foram acesos por clima, relevância do futebol local, alto custo, preocupações ambientais, direitos trabalhistas, escravidão, homofobia, proibição ao álcool, relações deplomáticas, democracia e várias outras pautas.

O calor do deserto e a Copa em Novembro

Com os verões que ultrapassam com facilidade os 40ºC e conseguem passar dos 50ºC, fazer a Copa do Mundo nos tradicionais meses de junho e julho seria algo praticamente impossível no Catar.

Todos os estádios-sede do torneio têm uma grande estrutura de retenção de calor e de ar-condicionado que, segundo relato dos atletas, consegue até deixar o campo de jogo frio. E também há resfriamentos para fan-zones, campos de treino e outras estruturas.

Ainda assim, não seria suficiente para sustentar a Copa no verão. Assim, começaram os debates para transferir a data do Mundial. Conflitos de datas com ligas europeias, Olimpíada de Inverno, NFL e Natal colocaram barreiras antes da Fifa encontrar uma data.

Assim, ainda em 2016, a Fifa confirmou a realização do Mundial em novembro. Essa será a 1ª vez na história que a final da Copa do Mundo não acontece entre junho e julho, com a decisão acontecendo já na 2ª metade de dezembro.

E se você for para o Catar, não pense que vai poder sair tomando uma cervejinha para se refrescar do forte calor. Como a lei do país é baseada no Corão, o consumo de álcool no Catar é proibido, mas terá algumas permissões específicas durante o período da Copa.

Isso acontece até mesmo por contratos multimilionários entre a Fifa e empresas do ramo. Assim, estádios e fan-zones poderão ter venda e consumo de álcool permitidos para não-muçulmanos, mas o consumo público segue sob pena de prisão – e açoite.

Direitos das mulheres e dos LGBTQ+

Mas nem todos os elementos culturais do país árabe foram tão fáceis de lidar como o consumo de álcool. Questões como os direitos da mulher e da população LGBTQ+ entraram em debate dentro de um país bastante conservador nessas duas pautas.

No Catar, a homossexualidade (masculina) é considerada ilegal e punível por 3 anos de prisão. E a situação ficou ainda mais sob alerta quando, em 2013, o Kuwait, no Conselho de Cooperação do Golfo, passou a adotar uma testagem física para evitar migrantes LGBTQ+.

Isso repercutiu de maneira tão negativa que seria uma proposta entre os países do grupo acabou engavetada – ainda que nada garanta que isso não volte à pauta depois da Copa.

Inicialmente, a postura da Fifa quanto ao tema, por meio do então presidente Joseph Blatter foi indicando que se evitasse atividades sexuais, mas, depois, ele mudou o discurso para uma posição da organização contra a discriminação.

Assim, no fim de 2020, o comitê organizador garantiu que vai acolher o público LGBTQ+ e seguir as regras da Fifa, permitindo bandeiras arco-íris nos estádios, por exemplo. Ainda assim, a orientação oficial segue sendo para evitar demonstrações públicas de carinho.

Para com as mulheres, o país trabalha com recomendações de vestimenta “modesta”. Desde 2014, as turistas no Catar são indicadas a evitar leggings, minissaias, vestidos sem mangas, roupas apertadas ou curtas em público.

Mas há exemplos latentes de crise social. Em 2021, a economista Paola Schietekat, que trabalhava no comitê organizador, denunciou um caso de abuso sexual por autoridades cataris. Ela precisou fugir do país para não ser presa e açoitada por sexo extramarital.

Escravidão e mortes nos canteiros de obras

E as polêmicas trabalhistas ainda vão muito além do caso da mexicana. Na preparação para receber a Copa do Mundo, dezenas de ações questionaram segurança do trabalho, exploração, abuso sistemático e até trabalho análogo à escravidão na construção civil.

Dentro desse cenário, não há um número seguro sobre trabalhadores mortos. Segundo o governo catari, entre 2014 e 2020, foram 37 óbitos, sendo que 34 não estariam ligados ao trabalho.

Mas o jornal britânico The Guardian indicou em fevereiro de 2021 que teriam morrido 6.500 trabalhadores migrantes da Índia, Nepal, Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka desde que o Catar foi confirmado como país-sede.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Catar ignora mortes súbitas, classificando como causas naturais. Na conta do órgão, só em 2021, foram 50 mortes, 500 trabalhadores feridos gravemente e mais 37.600 com ferimentos leves e moderados.

E, além da segurança no trabalho, as condições dos empregados migrantes no Catar também acenderam alerta de órgãos como Anistia Internacional, Human Rights Watch, além de algumas embaixadas. Mais de 30 mil estrangeiros trabalharam nas obras.

Entre as várias acusações, há de se destacar a de trabalho forçado, com trabalhadores tendo documentos e salários retidos, locados em alojamentos precários, jornadas de trabalho abusivas, deduções salariais punitivas, entre outras infrações trabalhistas.

Com a pressão internacional, o Catar readequou algumas legislações trabalhistas ao longo do percurso e conseguiu diminuir algumas das críticas. Mas a situação nunca foi plenamente resolvida.

Em meio a tudo isso, a Anistia Internacional elaborou um relatório em junho e orientou a Fifa e o governo catari a reservarem US$ 440 milhões (R$ 2,24 bilhões) para pagarem em indenizações aos trabalhadores das obras da Copa do Mundo.

Essas situações foram registradas nas obras para a construção ou reforma dos estádios-sede, mas também para a construção de aeroporto, linha de trem, estradas, ampliação de rede hoteleira e outras etapas da construção civil para a Copa do Mundo.

Oito estádios e uma sede

Ao todo, oito arenas vão receber os jogos da Copa do Mundo. Sete delas são novas, construídas justamente para a disputa do Mundial, enquanto a outra foi reformada para receber os principais jogadores do planeta.

Esse é o menor número de estádios-sede desde 1978, quando a Argentina realizou o Mundial em apenas seis palcos. Naquele ano, apenas 16 países disputaram a competição. Ao todo, apenas cinco disputas tiveram menos estádios que a deste ano.

E esta também será a Copa do Mundo mais concentrada em quase 100 anos. Os estádios mais distantes ficam a 70km, com quatro deles na região de Doha. A única vez que isso aconteceu foi na 1ª edição, em 1930, com todos os três estádios uruguaios em Montevidéu.

A diferença nesses 90 anos é que a Copa do Mundo se tornou um dos maiores eventos do planeta. Então, o governo local projeta um total de 1,2 milhão de torcedores envolvidos no evento, sendo 850 mil estrangeiros.

E como a distância entre os estádios é curta, a previsão é de que haja uma integração muito maior entre os torcedores, sem muita limitação de ficar preso apenas a uma cidade-sede ou tendo uma grande logística para acompanhar tudo da sua seleção.

Foto: Divulgação/Fifa

Na prática, as trocas entre os torcedores em Doha podem funcionar quase como uma sede única, lembrando mais o clima tradicionalmente visto nos Jogos Olímpicos. Mas, novamente, nem tudo são flores.

Com essa demanda enorme de turistas, a acomodação pode ser um problema no Catar. Em maio, o Comitê Supremo do país informou à agência Associated Press que há apenas 90 mil quartos disponíveis para o público no país.

E além disso, também há relatos de discriminação por parte da rede hoteleira catari. Também em maio, a rede norueguesa NRK revelou que há hotéis que recusam hóspedes LGBTQ+, ampliando o que pode ser uma grande dificuldade de acesso a hospedagem.

E quem paga?

Mas toda essa operação tem um custo elevadíssimo. Estádios ultra tecnológicos e refrigerados, estrutura de logística e transporte, instalações de treino e acomodação, estruturas temporárias e até a construção de uma cidade (Lusail) pesam na conta.

Estimativas mostram que o custo total da Copa do Mundo 2022 gira em torno de US$ 220 bilhões (R$ 1,12 trilhão). Isso ultrapassa quase sete vezes os gastos somados com as edições 2010 (US$ 3,6 bilhões), 2014 (R$ 15 bilhões) e 2018 (US$ 13 bilhões).

Isso tudo além das propinas. Segundo o jornal britânico The Sunday Times, a Fifa recebeu US$ 880 milhões (R$ 4,5 bilhões) em propina para realizar a Copa do Mundo de 2022 no Catar por meio da emissora de TV estatal Al Jazeera.

Boa parte disso vem dos custos da construção de Lusail. Orçada em quase US$ 45 bilhões, a cidade será palco da abertura e da final da Copa do Mundo e já chegou a receber a 1ª edição do GP do Catar de Fórmula 1, que será regular no calendário a partir de 2023.

Lá fica o Estádio Icônico de Lusail, com capacidade para 80 mil torcedores – a maior desta edição do Mundial. Depois da competição, ele será reconfigurado para 20 mil pessoas, abrindo espaço para um hotel 5 estrelas e um shopping center.

E boa parte desse custo saiu do próprio Governo do Catar. Assim como outras nações árabes, a economia do país é altamente dependente do mercado internacional de petróleo e gás, seus principais produtos de exportação, sob forte controle do emirado absolutista.

E por que paga?

Independente desde 1971, o Catar é uma monarquia hereditária – ou seja, o emir passa a liderança do governo local ao filho. O país não tem uma legislatura independente ou partidos políticos e está há quase duas décadas esperando pela prometida eleição parlamentar.

Em meio a isso, o país é reconhecido pela Freedom House como não livre. Com isso, o grande investimento feito em esportes pelo país, incluindo a Copa do Mundo, é visto como um processo de sportwashing – ou seja, usar esportes para “limpar” a imagem internacional.

Isso é um processo comum em países que buscam camuflar comportamentos ditatoriais, casos de infrações a direitos humanos e escândalos de corrupção, por exemplo. A prática também é comum em países como Rússia, Arábia Saudita, EAU, China e Venezuela.

O Catar também é palco de um GP da Fórmula 1 e um da MotoGP, de um torneio do circuito da ATP e um da WTA, recebeu dois Mundiais de Clubes recentes e receberá os Jogos Asiáticos de 2030. Além de vários patrocínios da estatal Qatar Airways.

Isso tudo, claro, além da própria Copa do Mundo. Depois de dezembro, o Catar sempre terá um lugar especial para os milhares de turistas que forem aos jogos e para os milhões de apaixonados que vão comemorar os bons resultados da sua seleção com a bola rolando.

E quem vai comemorar no fim?

A disputa com a bola rolando promete muito. Os mandantes serão os únicos estreantes na Copa do Mundo, enquanto Canadá e País de Gales vão para sua 2ª participação após longos jejuns. Os norte-americanos estavam fora desde 1986; os europeus, desde 1958.

Mas o favoritismo não está a favor dos novatos. Os hermanos estão bem cotados. A Argentina voltou a vencer a Copa América após 28 anos e agora quer buscar o tri do Mundo após 36, na provável última Copa do Mundo de Lionel Messi.

Enquanto isso, Portugal vive a mesma situação com os últimos capítulos de Cristiano Ronaldo. A seleção lusitana ainda apresenta problemas para encaixar o seu futebol, mas mostra bons valores individuais e aparece entre as candidatas ao título.

A Alemanha é outra que aparece bem cotada. Ainda passando por ajustes, o time de Hansi Flick segue invicto desde a troca no comando técnico e deve chegar com gana para apagar as mágoas da eliminação na 1ª fase de 2018.

A Inglaterra, campeã em 1966, vem embalada de um vice na Eurocopa – atrás da Itália, que chegaria como favorita, mas não conseguiu a vaga para a Copa do Mundo pela 2ª edição seguida.

Espanha e Dinamarca são outras seleções que vêm fortes. Mesmo sem elencos super estrelados, os dois times conseguiram resultados muito competitivos nas disputas européias e podem sonhar com um passo a mais no Catar.

Além dessas seis, Bélgica, Holanda, Senegal e Uruguai também podem chegar bem para a Copa do Mundo. Mas os principais postulantes seguem sendo Brasil e França.

Vem o hexa, Brasil?

A Canarinha segue como única seleção em todas as edições e chega ao Oriente Médio na liderança do Ranking da Fifa. Desde a eliminação na última edição do Mundial, o time de Tite tem um incrível registro de 35 vitórias, 10 empates e apenas 3 derrotas.

Mas, com o calendário bastante apertado pela pandemia da Covid-19, apenas uma dessas partidas foi contra uma equipe europeia, a República Tcheca. E isso levanta alguns questionamentos sobre como a verde-amarela vai reagir nos embates de mais alto nível.

Pensando no elenco, o Brasil segue com nomes fortes no cenário internacional, ainda que sua grande estrela, Neymar, não seja mais tão unânime no grande nível europeu.

Com o despontar de jovens destaques como Matheus Cunha, Vini Jr e Raphinha, a liderança dos experientes Alisson e Thiago Silva e a retomada de nomes importantes como Philippe Coutinho, o Brasil deve ter um dos 11 mais fortes da disputa.

Foto: Divulgação/Fifa

E as atuais campeãs?

A França também não pode ser descartada. Mantendo a mesma base do elenco que venceu o Mundial em 2018, Les Bleus vão em busca do tricampeonato. Caso consigam, serão os primeiros desde o Brasil de 1962 a vencer dois Mundiais seguidos.

Mas o time também encontrou dificuldades nos últimos jogos. Quando mexeram no elenco, os franceses encontraram grandes problemas criativos e somaram apenas dois pontos nas quatro rodadas iniciais da Nations League 2022.

Ainda assim, o time segue com o brilhantismo de nomes como Mbappé, Griezmann, Coman, Benzema e Kanté. Eles têm tudo para fazer a diferença em alto nível. Ainda que com as quedas de rendimento de nomes importantes como Pogba, Rabiot e Giroud.

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